Acessibilidade e inclusão ganham espaço na educação, na saúde e no trabalho

Cerca de 14,4 milhões de brasileiros têm alguma deficiência, segundo dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Garantir a essas pessoas acesso à saúde e à educação, além de igualdade de oportunidades e condições, é fundamental para a construção de uma sociedade mais inclusiva. Celebrado em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência reforça a importância de se ampliar a conscientização sobre os direitos e os desafios enfrentados por essa população.

Embora tenham ocorrido avanços nas políticas públicas destinadas às pessoas com deficiência, a educação ainda enfrenta desafios. De acordo com o último Censo do IBGE, no Brasil, 63,1% das pessoas de 25 anos ou mais com deficiência não completaram o ensino fundamental, contra 32,3% entre as pessoas sem deficiência. Além disso, somente 7,4% das pessoas com deficiência concluíram o ensino superior, em comparação aos 19,5% entre as pessoas sem deficiência.

As barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência não são apenas físicas ou relacionadas à oferta de recursos. Segundo a coordenadora do Núcleo de Acessibilidade e Apoio Psicopedagógico (NAAP) e professora dos cursos de Psicologia e Medicina da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCM-MG), Marina Colares, também persistem barreiras atitudinais, manifestadas em comportamentos que subestimam a autonomia e as capacidades dessas pessoas. Entre os exemplos estão a infantilização de adolescentes e adultos com deficiência, a presunção de que dificuldades de locomoção, visão ou audição significam ausência de compreensão e o direcionamento de perguntas ao acompanhante, em vez de à própria pessoa. “A desconstrução desses mitos ocorre por meio do letramento anticapacitista e do acesso à informação em escolas, instituições de ensino superior, empresas e comunidades, alinhados ao fortalecimento do protagonismo das próprias pessoas com deficiência.”

“O papel das instituições de ensino superior [na promoção da inclusão e na construção de uma cultura mais acessível e acolhedora] vai muito além de cumprir cotas ou exigências legais. Elas têm o dever de garantir o acesso e a permanência dos estudantes, estruturando núcleos de acessibilidade e apoio psicopedagógico fortes e capacitando os professores para adaptarem suas metodologias. Isso envolve desde eliminar barreiras físicas e virtuais até combater o capacitismo no dia a dia do campus”, complementa Colares.

Ensino superior e acessibilidade

A FCM-MG conta com o Núcleo de Acessibilidade e Apoio Psicopedagógico (NAAP), setor interdisciplinar voltado ao acompanhamento e suporte psicopedagógico dos estudantes.

O NAAP atua de forma transversal, desde o ingresso do aluno na instituição, com o objetivo de identificar suas necessidades e estruturar o suporte necessário ao longo da jornada acadêmica. Somente em 2025, mais de mil atendimentos foram realizados. “Na prática, após o atendimento do discente, o setor considera sua singularidade e constrói, em conjunto, estratégias de acompanhamento. Entre as ações estão a disponibilização de tecnologias assistivas, a realização de adaptações nas atividades avaliativas e, quando necessário, a elaboração do Plano Educacional Individualizado (PEI)”, detalha a professora.

Entre os recursos adotados, de acordo com as necessidades de cada estudante, estão adaptações no mobiliário, como mesas e assentos específicos; mudanças nas condições de realização das avaliações, como cabine individual, tempo adicional e prioridade em provas práticas; recursos de acessibilidade, como ledor, transcritor e fonte ampliada; além de adaptações em apresentações e trabalhos acadêmicos.

Atendimento 100% SUS: Espaço C.A.S.A.

Inaugurado em 2026, o Campus IV da FCM-MG implementou, no fluxo de atendimento de seu Ambulatório, o Espaço C.A.S.A. – Cuidado e Acolhimento em Situações Atípicas. Um ambiente acolhedor e individualizado, pensado especialmente para crianças e adolescentes neurodivergentes.

“A implantação do Espaço C.A.S.A. representa uma mudança importante na forma de olhar e acolher o paciente neurodivergente. No cotidiano assistencial, a proposta permite que a atenção à criança e ao adolescente considere não apenas a condição clínica, mas também as necessidades sensoriais, comportamentais, comunicacionais e emocionais de cada criança”, explica a diretora técnica do Ambulatório Ciências Médicas, Profa. Ana Paula Pinheiro Chagas Fernandes.

Com atendimento 100% SUS e trabalho conjunto com os acompanhantes e familiares dos pacientes, o Espaço C.A.S.A. é mais do que uma sala adaptada. O local funciona como uma estratégia de cuidado, na qual a permanência não é obrigatória, permitindo que a criança saia e retorne acompanhada de seus responsáveis sempre que houver necessidade.

A proposta também permite que a equipe médica compreenda melhor cada paciente e adapte os atendimentos às suas necessidades específicas (sensoriais, comportamentais, comunicacionais e emocionais), indo além da condição clínica.

“O Espaço C.A.S.A. representa uma mudança de perspectiva: não esperamos que a criança se adapte ao serviço de saúde; buscamos adaptar o cuidado às necessidades da criança. É um espaço para acolher, cuidar e também aprender, aproximando assistência, família, ensino, inclusão e humanização”, finaliza Fernandes.

Inclusão também faz parte da rotina da Feluma

Além das iniciativas desenvolvidas na FCM-MG, a inclusão e o respeito às pessoas com deficiência também fazem parte das ações da Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), mantenedora dos Institutos Ciências Médicas. Por meio do Programa de Inclusão Feluma, a instituição desenvolve iniciativas voltadas à construção de um ambiente mais equitativo, respeitoso e colaborativo, envolvendo todos os colaboradores, independentemente de suas características pessoais ou deficiências.

Entre as ações estão campanhas de conscientização, divulgação de oportunidades de trabalho abertas a todas as pessoas, considerando as especificidades relacionadas à inclusão de pessoas com deficiência, campanha de autodeclaração e publicações internas sobre os diferentes tipos de deficiência. As iniciativas buscam ampliar o conhecimento sobre o tema, combater preconceitos e fortalecer uma cultura institucional pautada pelo respeito à diversidade e à inclusão.

Para Lilian Caetano, colaboradora da Feluma há sete anos, o mercado de trabalho ainda enfrenta desafios para as pessoas com deficiência. “Na minha visão, os principais desafios ainda envolvem o incentivo e o apoio da família para que a pessoa com deficiência desenvolva confiança em si mesma e reconheça suas próprias capacidades e potencialidades. Além disso, é fundamental combater o capacitismo, tanto nas relações sociais quanto no ambiente de trabalho, promovendo oportunidades reais, respeito às diferenças e condições de igualdade para que as pessoas com deficiência possam desenvolver plenamente suas competências profissionais.”

Diagnosticada com osteogênese imperfeita, também conhecida como “ossos de vidro”, Lilian atua no NAAP da FCM-MG e reforça que integrar um ambiente que valoriza a diversidade e a inclusão é essencial. “Trabalhar na Feluma e fazer parte de uma equipe que valoriza a diversidade e a inclusão significa sentir-me acolhida, respeitada e incluída no ambiente de trabalho. Gosto de trabalhar na Feluma, especialmente por contar com instalações que oferecem uma boa acessibilidade e atendem às minhas necessidades. Além disso, considero muito importante perceber o respeito e a compreensão dos meus colegas e alunos em relação à minha deficiência física. Isso contribui para que eu me sinta pertencente e possa desempenhar meu trabalho com autonomia e segurança”, finaliza.

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