Quase 50 mil pessoas aguardam transplante no Brasil; IONCM-MG promove simpósio sobre doação de órgãos 

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No país, 49.600 pessoas aguardam atualmente por um transplante de órgão, segundo dados do Ministério da Saúde. No ano passado, mais de 4 mil brasileiros morreram enquanto esperavam por um transplante. O cenário será discutido durante o simpósio “Setembro Verde – Jornada de Doação de Órgãos, Transplante e Cuidados ao Paciente Transplantado”, promovido pelo Instituto de Oncologia Ciências Médicas de Minas Gerais (IONCM-MG) nos dias 29 e 30 de setembro, a partir das 18h. 

O evento integra a campanha nacional Setembro Verde, voltada à conscientização da população sobre a doação de órgãos. A programação reúne médicos especialistas para discutir temas como “Doação de órgãos no Brasil e em Minas Gerais: onde estamos e onde podemos chegar” e “Complicações cirúrgicas do transplante renal: reconhecimento e manejo precoce”, além de outros assuntos e da discussão de casos clínicos reais. A entrada é gratuita, mediante retirada de ingressos pelo site. 

A autorização começa em casa 

 

Embora a doação de órgãos esteja associada ao ambiente hospitalar, a decisão da família começa muito antes. Para o coordenador da cirurgia de transplantes do Hospital Universitário Ciências Médicas de Minas Gerais (HUCM-MG), Dr. Silvério Leonardo Macedo Garcia, conversar sobre o assunto previamente pode fazer diferença no momento da decisão. 

“se decide na mesa de casa, numa conversa em família. Quando chega o momento mais difícil, quem diz sim ou não é a família. E a família que nunca ouviu o ente querido falar sobre o assunto, na dor, tende a dizer não. Hoje, no Brasil, quase metade das famílias procuradas recusa a doação. E, na maioria das vezes, não por egoísmo, mas por dúvida, por medo, por nunca ter conversado sobre isso”, explica. 

Segundo o especialista, apesar dos avanços, o número de transplantes ainda não atende toda a demanda. “O Brasil tem o maior sistema público de transplante do mundo, e 2025 foi o melhor ano da nossa história. Nunca tivemos tantos doadores e tantos transplantes. Essa é a boa notícia, e ela precisa ser celebrada. Mas a verdade é que ainda fazemos cerca de metade dos transplantes de que o país precisa. No ano passado, mais de 4 mil brasileiros morreram esperando na fila. Isso dá, em média, onze pessoas por dia. Onze famílias por dia que não tiveram a chance de receber aquele telefonema: seu órgão foi doado”, conta Garcia. 

Da morte encefálica ao transplante 

A efetivação da doação envolve uma série de etapas e exige agilidade das equipes responsáveis. “Tudo começa na UTI, quando um paciente muito grave evolui para morte encefálica. O hospital é obrigado a comunicar a Central de Transplantes, e o diagnóstico é confirmado com todo o rigor ético e legal. Só então a equipe do hospital se senta com a família, para a conversa sobre a doação. Se a família diz sim, o sistema busca, na Fila Única, as pessoas compatíveis mais graves, onde quer que estejam: não é raro um coração cruzar o país de avião para chegar a tempo. Vem então a cirurgia de retirada, o transporte contra o relógio, porque cada órgão resiste poucas horas fora do corpo, e na outra ponta, uma equipe e um paciente que esperavam por aquele momento, às vezes havia anos”, detalha o especialista. 

De acordo com o Ministério da Saúde, existem dois tipos de doadores: o doador vivo e o doador falecido. O primeiro pode doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula ou parte dos pulmões, desde que a doação não prejudique sua própria saúde e sejam cumpridos os critérios estabelecidos. Já o doador falecido pode doar órgãos como rins, coração, pulmão, pâncreas, fígado e intestino, além de tecidos. 

No Brasil, o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) é responsável pela coordenação, regulamentação e monitoramento da doação e do transplante de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano. Entre os órgãos mais aguardados estão rim e fígado. 

Uma doação entre irmãos 

Recentemente, médicos da equipe de Nefrologia do HUCM-MG realizaram o transplante renal de uma doadora viva. Julia dos Santos, após seguir todas as normas estabelecidas, doou um dos seus rins para o irmão, Pedro dos Santos. 

“Há um ano e seis meses, a vida do Pedro Henrique mudou por completo. E, com a dele, a nossa família também foi profundamente impactada. [Ele] passou por situações que jamais imaginaríamos viver e, logo em seguida, veio a descoberta da doença. Vieram o medo, as incertezas, as internações, as horas longas de diálise. Foi aqui que recebemos a notícia que mudaria completamente a sua vida. Hoje, caminhamos por esses mesmos corredores, carregando no coração a esperança de viver um recomeço que tanto pedimos a Deus. Mas Deus, que nunca perdeu o controle de nada da nossa história, já preparava um caminho que nós ainda não conseguíamos enxergar. O amor que sempre existiu entre nós, agora ganhou uma nova forma. Uma parte de mim ajudará você a escrever o novo capítulo da sua vida”, narra Julia. 

Para Pedro, o transplante representa a possibilidade de retomar a vida ao lado da família. 

“Agora eu tô [aqui] com a oportunidade de viver de novo com o rim da minha irmã. Muito feliz! A maior demonstração de amor que eu já vi. Só coisa boa daqui pra frente. (…) Tem que acreditar, tem que ter fé em Deus, porque não é o fim não. A vida continua! E talvez esse seja o maior significado da doação. De dar a alguém a oportunidade de continuar sua história. No nosso caso, esse gesto aconteceu entre nós como irmãos, mas existem muitas histórias que só podem continuar porque alguém, mesmo diante da dor da despedida, escolheu dizer sim à doação de órgãos”, finaliza Pedro dos Santos. 

SERVIÇO 

Setembro Verde – Jornada de Doação de Órgãos, Transplante e Cuidados ao Paciente Transplantado
Data: 29 e 30 de setembro
Horário: a partir das 18h
Local: Anfiteatro do Instituto de Oncologia Ciências Médicas (IONCM)
Entrada: gratuita
Inscrições: site do evento 

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